quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Instrumentos de fábrica ou de luthier

Instrumentos feitos a mão x instrumentos de fábrica.

Eu gostaria de traçar um paralelo sobre estes dois instrumentos.
Instrumentos de fábrica pretendem atender a grandes mercados, vendidos em muitas lojas, com a proposta de serem consumidos como um artigo de necessidade, moda ou de tecnologia e que em muitas vezes é apenas objeto de consumo momentâneo e com uma certa obsolescência programada.  Claro que eu não estou falando de todos, existem marcas que se preocupam com a durabilidade, sonoridade e tocabilidade de seus instrumentos e possuem ótimo custo benefício.   Gente!  Instrumento musical é uma ferramenta e tem função especifica.
Recebo diariamente em meu atelier, instrumentos de fábrica, com problemas dos mais diversos tipos:  cavaletes soltos, mão quebradas, braços empenados, tarraxas duras, com problemas de afinação, etc e não é privilégio de instrumentos de baixo custo não! Acredito que trinta por cento dos instrumentos que chegam ao mercado hoje, terão algum tipo de problema em no máximo dois anos, seja por conta da construção, do clima, ou até mesmo por conta do mau uso.  Em cinco anos, mais da metade destes instrumentos já terão problemas tão sérios que o restauro poderá se tornar inviável, dependendo do custo do instrumento.  Você deve estar se perguntando por quê?   Porque é preciso vender!  O que vc acha de um instrumento cuja cola não é reversível, ou seja, colar de volta se torna um trabalho hercúleo, cujo verniz é tão duro que abafa o som, cujas tarraxas quebram mais rápido do que o prazer de tocar, as cordas são um lixo, a regulagem não existe, garantia então é artigo de luxo!  Já reparou que o vendedor quer sempre te fazer comprar algo mais, dificilmente vemos um vendedor dizer: você não precisa de mais nada, apenas isto.  Falta informação!
Quando vc compra um instrumento de um bom luthier, está comprando um instrumento que foi pensado para ser uma ferramenta do músico, instrumento leve e sonoro, construído para facilitar a execução, com um acabamento que não prejudica a sonoridade, tarraxas que duram e afinam com precisão, garantidos pelo profissional luthier, que tem um nome a zelar e que fará de tudo para te satisfazer.
Quantos músicos iniciantes perdem o interesse na música, por conta de instrumentos que dificultam a aprendizagem, com cordas insuportavelmente altas e sonoridade nasalada.  Aqui vai uma dica:  compre instrumentos de madeira maciça, dê preferencia aos instrumentos bem acabados, sem sobras de cola por dentro e de profissionais que estejam perto de vc, ou que você tenha fácil acesso.
 O luthier deve se ocupar do estudo de todas as falhas visíveis dos instrumentos de fábrica e fazer a diferença em seu próprio instrumento, atendendo o cliente com o interesse em satisfazer a sonoridade que se pretende.  Esta cumplicidade entre o luthier e o músico não é um artigo de luxo, é uma necessidade.  Muitos pensam que o luthier é um profissional caro, fora da realidade e talvez ele realmente esteja fora da realidade de massa, mas pare pra pensar: se você almeja se tornar um músico profissional, deve começar a encarar que muitos dos instrumentos que você vê por aí não atendem as necessidade de músicos profissionais.  Você já viu um Stradivari sendo vendido em uma loja?  Um Smallman talvez?   Existem violões por exemplo, que chegam a custar cem mil dólares.  O exemplo é o violão modelo PIcasso, da luthier canadense LInda Manzer e sabe quem toca nele?  Pat Metheny.   A questão é:  qual é a minha intenção na hora de escolher um instrumento.  Saiba que as vezes o barato, sai caro.  Pense no seguinte:  um instrumento que aqui custe 600 reais, não terá qualidade... Porque se ele custa isso aqui, foi produzido por no máximo 120 reais, ou se quiser, em torno de 50 dólares... pense o que você compra com esta quantia.
Vejo no mercado de guitarras e baixos uma transgressão da qualidade, tão grande quanto nos violões.  Os corpos de instrumentos sólidos tem vindo com muitas colagens, com madeiras de densidades diferentes, madeiras que mais parecem isopor e mal seguram os postes das pontes... lindos, bem pintados, acabados e novos, mas não por muito tempo.  Cópias de Fender e Gibson invadem o mercado nacional, transformando este mercado em uma guerra de nervos!
Informe-se, aprenda a escolher, ouça, toque, siga o seu coração, seu bolso, suas crenças, mas esteja aberto a conhecer outros mundos, outros luthiers, outras propostas, até encontrar aquele instrumento que tenha a sua cara... em último caso:  aprenda a fazer!