sexta-feira, 5 de junho de 2009

Construindo Cavaquinhos

Por Diego de Assis

O Cavaquinho é um dos instrumentos musicais de corda da família dos tampos chatos, como violões, violas e bandolins. No Brasil é instrumento tradicional que pertence às rodas de choro e samba, mas não tem origem definida; uns dizem que é português, outros dizem ser grego. É encontrado também no Hawai, sendo também um instrumento típico.

Pode-se descrever o cavaquinho como uma pequena guitarra acústica, e tem este nome em função de seu tamanho; “cavaco” é uma sobra de madeira, um pequeno pedaço de pau.

Neste artigo descreverei algumas técnicas para construção do instrumento, conforme as experiências do Curso de Lutheria que leciono há alguns anos.

Madeiras

Assim como na construção de móveis, as madeiras para construção de instrumentos musicais devem estar secas e maduras, para evitar retrações. As madeiras da caixa acústica possuem espessura menor que 3mm; madeiras jovens facilmente racham nesta espessura. Além disso é preciso considerar a qualidade sonora destas madeiras, percutindo-as.


São diversas espécies de madeira utilizadas na construção de cavaquinhos, conforme as exigências do músico e do luthier. Os instrumentos mais caros e sonoros são geralmente compostos com madeiras nobres, como o jacarandá (rosewood), o ácer (maple), o abeto (spruce), o mogno (mahogany), o cedro (cedar) e o ébano (ebony), entre outras. Algumas são de procedência nacional, outras importadas, como o ébano e as madeiras do tampo.

Cada espécie de madeira tem uma função própria no instrumento. Para atingir um bom volume e uma boa sustentação do som são necessárias madeiras duras e macias; as madeiras macias do tampo são responsáveis pela sustentação do som, já que vibram mais que as madeiras duras. As madeiras duras da caixa de ressonância (fundo e ilhargas) devem refletir o som, sendo por isso responsáveis pelo volume. O braço e a escala devem proporcionar boa estrutura para sustentar as cordas, feitas também com madeira dura. Estas combinações determinam a leveza, a sonoridade e a estética do cavaquinho.

Para a fabricação dos cavaquinhos do Curso de Lutheria fiz uma seleção alternativa de madeiras, todas de procedência nacional e encontradas facilmente nas madeireiras do Rio de Janeiro:
- Tampo: marupá, cedro ou curupixá
- Fundo, laterais, peças internas e braço: cedro ou curupixá
- Escala e cavalete: roxinho
- Ornamentos: Imbuia , pau-marfim, pau-ferro, Sebastião-de-arruda e sobras diversas.

Técnicas de construção – o braço

Iniciamos com a construção do braço do cavaquinho, que é, essencialmente, um trabalho de entalhe. Antes de iniciar a modelagem as peças são retificadas e coladas, e com serras a maior parte de material é retirada.

É melhor resolver logo o encaixe do braço com o tróculo, malhete que mais tarde servirá para unir o braço com a caixa acústica. A forma reta do braço ainda permite apoiar esquadros e réguas para marcação.

O trabalho é controlado por um paquímetro, de acordo com as dimensões do desenho técnico em proporção natural. A escala de roxinho é colada ao braço, com o cuidado de estar na posição correta.

Uma das partes mais delicadas é a preparação da escala, pois os trastes no cavaquinho são muito próximos, exigindo maior precisão no corte. Para diminuir a margem de erros utilizamos um gabarito para conduzir cada corte, garantindo uma distância e profundidade uniformes.

Os trastes da escala são instalados e aparados antes da união com a caixa acústica. Mais tarde serão regulados com limas e lixas para metal, já com a construção pronta.


Técnicas de construção – a caixa acústica

O fundo e o tampo maciços devem ser aplainados (ou aparelhados), com a espessura uniforme em todos os momentos da peça. Em seguida são marcados e recortados na serra- de-fita.

Peças de madeira maciça devem promover melhor volume e qualidade sonora, mas pode-se fabricá-las apenas com folhas de revestimento, colando-as sob pressão.

As ilhargas (ou laterais) são moldadas em fôrma, garantindo um padrão e nenhuma perda de material, já que não há habilidades especiais envolvidas neste procedimento. Empenar peças maciças com calor exige muita prática.

O cavaquinho em sua forma tradicional é um instrumento simétrico; suas madeiras são casadas, garantindo o equilíbrio da forma e do som. Tampo, fundo e ilhargas são constituídos por pares da mesma peça. Estas peças são coladas pelas bordas, que devem estar perfeitamente unidas.

As ilhargas são encastradas numa fôrma, para colagem dos tróculos do braço e do bojo, assim como para retificação com plaina manual.

Recebem reforços nas bordas, e é estruturado com pequenas travessas. As travessas devem ser ligeiramente curvas, para que a caixa seja estufada, principalmente no fundo.

No cavaquinho há diversos filetes, principalmente nas emendas e arestas, que servem como ornamento e também reforçam a união das ilhargas com o tampo e o fundo. O tampo deve receber a roseta (ornamento em torno da boca do instrumento) antes de unir-se às ilhargas. Os desenhos da roseta são variados, sendo tradicionalmente uma marchetaria de motivos geométricos.

Muitos luthiers compram estas rosetas prontas em lojas de instrumentos musicais, mas preferi fabricar nossas próprias rosetas.

O corte da roseta é feita com fresa reta e tupia manual. Criei uma ferramenta própria para o corte e instalação de rosetas, que apelidei de roseteira.

Diferente de um compasso dispensei o centro e me baseei nas margens da circunferência para conduzir a ferramenta. A tupia é encaixada num prato, que é girado sobre a peça a ser usinada.

Além da roseta, o tampo recebe o leque harmônico, constituído por pequenas talas coladas, responsável pela estrutura do tampo e do som. Este modelo de leque harmônico é tradicional, mas pode apresentar as mais variadas formas.

O tampo e o fundo são unidos sob pressão, em fôrma que dispensa grampos – a caixa de colagem. Usamos cunhas, procedimento que criei para evitar acidentes, já que um grampo pode facilmente amassar todo o conjunto. Com cunhas encaixadas com as mãos não há este risco, faz-se apenas a pressão necessária entre as peças, e claro, economiza os grampos da oficina!

Após a união das peças, as sobras são retiradas com a tupia manual com fresa reta, abrindo um pequeno rebaixamento nas arestas para a aplicação de filetes.

Finalização do instrumento

Ao fim da construção braço e caixa acústica são unidos com auxílio da morsa de bancada e um grampo, conformando o instrumento.

O cavalete é modelado, com seus canais abertos na tupia ou na serra circular. Assim como a escala o cavalete também é feito de roxinho.
As abas curvas da peça são modeladas manualmente ou com auxílio de tupia estacionária, com um cilindro de lixa. Então, o tampo é marcado e o cavalete colado.

Com osso de canela de boi modelamos a pestana e a ponte (peças que apóiam as cordas em suas extremidades) na lixadeira de disco. Estes ossos podem ser adquiridos em qualquer açougue a custo zero.

Então, antes do acabamento instalamos as tarraxas e as cordas, para testar o cavaquinho e regular os trastes. É o momento dos ajustes.

O acabamento é feito com verniz de nitrocelulose, aplicado com pistola. Todo o instrumento é envernizado, com exceção da escala, que é protegida com fita adesiva durante a aplicação. Após a cura do verniz o instrumento é polido com lixas d’agua de grão fino (320, 360, 400) e pastas de polir.

O polimento é controlado observando o instrumento à contra-luz; desta forma as falhas ficam visíveis. Não é tão simples obter um bom acabamento, sendo esta uma das partes mais árduas de todo o processo de fabricação.

Este é um bom projeto para o iniciante, onde as técnicas de construção são simples e fáceis de reproduzir, conformando ao final um belo instrumento e de boa qualidade sonora.

Agora…

…tocar o cavaquinho? Isso sim é difícil!

- Diego de Assis

Nota: Agradeço aos queridos alunos Núbia, Cleane, Rosangela, Valdéia, Nena e Pedro, e os demais que tornaram possível a realização deste artigo.

http://diegodeassis.wordpress.com

11 comentários:

Anônimo disse...

Lindo artigo. Parabéns, Diego!

Giorgio Seixas

Jrmogi disse...

Fernando, parabéns pelo Blog !!!..Show de bola !

Vc já se aventurou na fabricação de Viola Caipira ???

Sou violeiro e com seu conhecimento, acho que faria belas violinhas !!

Abraços e Viva São Gonçalo !!!

Carlos - Mogi Mirim - SP.

Beluthier disse...

Ainda não me aventurei na viola, mas gosto muito. Está nos meus planos futuros desenvolver uma.
Obrigado pelo comentário e seja bem vindo.
Grande abraço!

huélene oliveira disse...

Ótimo artigo, mas todos os luthiers só pensam em falar e falar e nunca ensinar passo a passo para quem não tem condição para pagar.Como vamos saber se não nos dão um início nem que seja para dar início ao ofício e se aperfeiçoar com vocês. EU AMO LUTHERIA ATÉ CONHEÇO UM LUTHIER MUITO BOM MAS SÓ QUER TIRAR VANTAGENS.

abraços!!!!!!!!
graça e paz!!!!!!
huélene oliveira desempregada

Beluthier disse...

O Luthier é como qualquer outro profissional, trabalha para se sustentar, estuda, investe em ferramentas, cursos, livros, etc.
Entendo que a lutheria deva ser passada de uma maneira presencial, pois existem centenas de técnicas que se perderiam quando ensinadas apenas nos livros, por conta da falta de vivência. Existem livros que falam sobre o assunto de forma bastante direta, mas se a pessoa não possui algum saber, fica complicado entender o todo.
Em relação ao aprendizado gratuito da lutheria, existem cursos como o OELA NA AMAZÔNIA, que ensinam gratuitamente, pois são amparados por outros movimentos de captação de recursos.
Apesar de respeitar sua posição, não acho justo culpar o Luthier, normalmente estes profissionais trabalham muito para sobreviver.
Agradeço a sua opinião.

Natanael disse...

Boa matéria essa,concordo que pra se chegar até onde vc e outros bons luthier chegaram tiveram que estudar muito e vcs tinham a fonte onde iam buscar conhecimentos e se esforçaram para aprender este belo officio,mas nós mortais temos direito de aprender tbm,e vcs tbm podiam ganhar como professores,nem todos seriam mestres,mas teriam conhecimento da arte.Parabens pela matéria,adoro esta arte.

CANTINHO DA SAUDADE disse...

Parabéns Fernando pelo belo tutorial,sou fascinado com tal oficio, porém a abilidade é pouca, mas estou montando uma banca com serra tupia e plaina, para distrair minha aposentadoria, quaria saber de vc, se para esperiencia posso fazer um cavaco de caixeta ou seja essa madeira de caixote, outra madeira comum aqui na região é angelin pedra, outra duvida o fundo as faixas e tampo pode ser da mesma madeira, gostaria de obter essas informações. Um abraço, e continue ajudando a quem precisa de luz

Jean disse...

Fernando,
Por curiosidade... vc usou que tipo de cola na adesao das lamninas para as faixas laterais?? e que especie de madeira usou? estou querendo usar esse mesmo método para faixas de um violao que pretendo construir. Será que funciona também?

Anônimo disse...

Olá, vocês poderia me disser aonde eu consigo roseta adesivas para o meu violão?

Att
Frank

frank.bari@hotmail.com

Arinaldo Eloi disse...

Parabéns mesmo pelo artigo. Sou Luthier de rabeca e violino e pretendo agregar outros instrumentos a minha arte. Vejo as pessoas querendo construir seus próprios instrumentos e isso é louvável, o problema é a falta de "tato e conhecimento até para construir uma caixa de madeira". Minha gente, Tirar som puro de madeira e cordas de aço, obedecendo regras matematicas que por um milimetro de diferença estraga-se um instrumento, exige mais do que isso, requer tempo, dinheiro, local adequado para trabalhar e um minimo de conhecimento de marcenaria fina. Comecem do começo esse é meu conselho. Um abraço ao autor do artigo e até a proxima.

Demian disse...

Fernando o que voce faz e muito bom, adore o cavaquinho, sou Argentino e gostaria de fazer um, estou tomando aulas aqui em Cordoba onde eu moro, pregunto: sera que voce nao tem um plano de cavaquinho que possa usar para a escola, Tomara algun dia a gente se conheça. Abraço MAESTRO.