domingo, 24 de agosto de 2008

Um pouco de história

( "O velho guitarrista" de Pablo Picasso)

Um pouco de história
( por Henrique Pinto)

O denvolvimento do violão no Brasil passou por diversas fases que modificaram seu formato, sendo que em cada região houve uma readaptação e transformação, assim surgindo diversas variantes do primitivo instrumento que fora trazido pelos portugueses no século XVI. Neste período, na Europa, o instrumento que mais se assemelhava ao nosso atual violão era a vihuela, que tinha cinco cordas duplas e algumas tinham até seis cordas. Era muito usada nas cortes por músicos cultos, que liam, escreviam, tocavam seus instrumentos e ensinavam música. Neste mesmo período existia o violão de forma ainda primitiva, com quatro cordas e, consequentemente, com limitadas possibilidades composicionais. Junto com a corte portuguesa que veio a se estabelecer no Brasil, a vihuela fez parte do acervo cultural que influenciou a cultura do país recém-conquistado. A vihuela foi se modificando e se transformou na nossa “viola caipira”, com pequenas modificações no formato. Ficou mais “acinturada” e as cordas usadas foram as de aço, resultando numa sonoridade peculiar, quase como um cravo. Esta viola além de servir como instrumento de acompanhamento para cantores, era também instrumento solista, sendo utilizada até hoje com um repertório particular e uma técnica específica.

Com a evolução do violão na Europa, principalmente na Espanha, suas primitivas quatro cordas, passaram a 5 e posteriormente 6, assim ficando definitivamente. A escola violonística tomou forma e surgiram compositores que elaboraram métodos e obras que formaram, com o tempo, a estrutura básica de todo ensino posterior. Os métodos principais que surgiram foram os dos compositores Ferdinando Carulli e Matteu Carcassi, com uma didática utilizada até nossos dias. Este movimento aconteceu no século XVIII e os métodos deles foram trazidos para o Brasil, dando inicio uma primeira fase do estudo sistemático do violão. Como este material era escasso, sua utilização foi dando margem a métodos improvisados e conceitos didáticos particulares, mas, de certa forma, estava implementado o ensino do violão por música no Brasil. Seu conceito não era como o estudo de um instrumento de orquestra ou piano, era marginalizado socialmente e considerado pejorativamente um instrumento de amadores que se tocava nas barbearias e reuniões, sem pretensões artísticas maiores.
No início do século XX, o violonista uruguaio Isaias Sávio, se radicou no Brasil e trouxe consigo todo seu acervo da obra violonística editada na Europa. Além de possuir uma pedagogia mais atualizada, editou pela Ricordi Brasileira uma série de trabalhos que facilitaram ao professor o ensino do violão, estabelecendo certa ordem didática nas obras a serem administradas aos alunos. Isaías Sávio além de sua visão pedagógica foi concertista e viajou por todo Brasil, divulgando o violão com um repertório original, executando obras não só de autores clássicos do instrumento, mas também com obras próprias. Sua Escola Violonística era baseada na “Escola de Francisco Tárrega”, pois toda uma série de exercícios técnicos e didáticos era inspirada na forma como Tárrega pensou que um violonista devesse trabalhar com seu instrumento: escalas, arpejos, ligados, saltos, exercícios de dedos fixos, pestanas e ornamentos, postura das mãos, principalmente a mão direita, que os dedos indicador, médio e anular teriam que formar um ângulo reto com relação às cordas. Assim sendo, a primeira escola que oficializou o aprendizado do violão nos conservatórios como instrumento de concerto, elevando-o em um nível de “igualdade social” com os outros instrumentos, foi o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. A cadeira foi instituída e idealizada por Isaias Sávio, com um programa didático do 1º ao 7º ano, com obras, estudos e técnica gradativamente progressiva. Foi o passo mais importante para os Conservatórios profissionalizarem seus violonistas. Sávio formou violonistas que atuam hoje no cenário nacional e internacional como: Carlos Barbosa Lima, Paulo Bellinati, Marco Pereira, Henrique Pinto, Paulo Porto Alegre, dentre outros.
Paralelamente ao trabalho de Sávio, surgiram outros importantes métodos, que objetivavam sistematizar o ensino para o iniciante. Podemos citar: A Escola do Violão de Atílio Bernardini, Iniciação Violonística de Manoel São Marcos, Estudo Programado para Violão de Pedro Cameron, Comece a Estudar Violão pelas Cordas Soltas de Vicente Ferreira e outros métodos que são recompilações de exercícios de Tárrega.
Este grande salto qualitativo dos intérpretes e da escola violonística motivou muitos compositores não violonistas a escreverem para o instrumento como: Ascendino Teodoro Nogueira, que tem uma extensa obra para violão, com destaque para sua série de Brasilianas, o Concerto para Violão e Orquestra, que foi gravado por Geraldo Ribeiro, o Concertino para viola caipira e orquestra gravado por Carlos Barbosa Lima; Marlos Nobre que tem extensa obra dedicada ao violão, inclusive um concerto para violão e coral, Yanomani e obras para dois violões gravadas pelos Irmãos Assad; Sergio Vasconcellos Correa tem seus estudos, Sonatina e o Concerto do Agreste para violão e Cordas; Camargo Guarnieri com a peça Ponteio, Valsa-Chôro e estudo, obras de muita expressão musical; Ricardo Tauchian com uma extensa obra; Nestor de Holanda Cavalcanti com sua obra camerística, incluindo o Violão em Várias Combinações; Edmundo Vilano Cortez com obras para várias combinações, das quais destaca-se aquelas escritas para 3 violões; Radamés Gnattali com sua extensa obra camerística e solística, incluindo vários concertos, como o Concerto para dois Violões e Orquestra gravado pelo Duo Assad.
Citamos ainda os concertistas e compositores: Paulo Bellinati, Marco Pereira, Paulo Porto Alegre, Fred Schneiter, Luis Carlos Barbieri, Geraldo Ribeiro, Pedro Cameron, Douglas Lora, Sergio Assad e Egberto Gismonti com obras editadas no Brasil, Estados Unidos e Europa. Além destes, outros compositores, de maior ou menor expressão estão compondo para violão, enriquecendo sobremaneira o acervo deste instrumento.
Não podemos deixar de citar os violonistas “populares”, que por sua força expressiva legaram uma obra significativa para a música brasileira, explorando o violão de forma geralmente virtuosística e que são hoje consideradas obras de concerto. Músicos “intuitivos”, mas com rica criatividade musical, como: Dilermando Reis, João Pernambuco, Américo Jacomino (o Canhoto), Armando Neves, Nicanor Teixeira e Garoto, nosso grande Heitor Villa-Lobos, dentre outros.